André Lara Resende, os Jovens nas Ruas e a Reconstrução da Confiança no Brasil
O debate do CEBRI e as mobilizações estudantis mostram que o país ainda tem energia para enfrentar seus impasses.
Principais pontos do artigo
Um mapa do argumento antes da leitura integral.
A baixa confiança entre brasileiros está ligada também à desigualdade, ao tratamento injusto e ao risco de cooperar com desconhecidos.
O Brasil reúne alta demanda judicial, poucos magistrados por habitante e remunerações muito distantes da renda média do trabalho.
O debate do CEBRI mostra que divergências econômicas podem ser tratadas com rigor e respeito.
A participação juvenil precisa continuar após a eleição, com cobrança de resultados e pluralismo democrático.
1. O CEBRI e os sinais de vitalidade política
Em 23 de outubro, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) reuniu André Lara Resende e Luiz Orenstein para discutir uma pergunta provocadora: *Juros do Banco Central: Falsa Racionalidade?* O encontro foi além da taxa Selic. Tratou da distribuição de renda, das escolhas que orientam a política econômica e da confiança necessária para reformá-las.
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Lara Resende questionou os modelos convencionais que justificam juros persistentemente elevados e defendeu maior coordenação entre as políticas monetária e fiscal, com redução gradual e previsível dos juros. Orenstein destacou os riscos cambiais, os desafios fiscais e a importância da credibilidade institucional.
Assista ao vídeo do debate: abrir no YouTube .
O debate recolocou uma questão fundamental: quem ganha, quem paga e quem participa das decisões econômicas? Juros elevados afetam a dívida pública, o investimento produtivo e os recursos disponíveis para financiar oportunidades. Discuti-los com rigor, sem transformar divergências em ataques pessoais, é um serviço à democracia.
Naquele outubro, estudantes também se mobilizavam em universidades, ruas e periferias. O debate intelectual e a ação coletiva são manifestações diferentes de uma mesma necessidade: fazer o país discutir seu futuro.
A eleição passou, mas o desafio permanece: transformar inteligência crítica e participação social em confiança duradoura nas instituições e entre os brasileiros.
2. Desigualdade e desconfiança: um círculo vicioso
O Brasil enfrenta um obstáculo ao desenvolvimento que não aparece nas contas públicas: a falta de confiança entre as pessoas.
Na onda de 2017 a 2022 do World Values Survey , apenas cerca de 7% dos brasileiros disseram confiar na maioria das pessoas. No Canadá, foram 47%; na China, mais de 60%.
A desconfiança eleva custos. Contratos exigem mais garantias, empresas receiam compartilhar conhecimento, parcerias se restringem a círculos próximos e conflitos acabam nos tribunais. Também dificulta coordenar investimentos, políticas públicas e esforços coletivos de longo prazo.
A desigualdade econômica e social é uma das raízes desse problema. Quando as oportunidades são profundamente desiguais, os cidadãos vivem realidades cada vez mais distantes. A percepção de que alguns dispõem de privilégios, influência e proteção inacessíveis à maioria enfraquece o sentimento de pertencimento a uma mesma comunidade.
A OCDE identificou essa relação no Brasil. Em pesquisa realizada em 2022, apenas 19,1% dos entrevistados consideravam provável que servidores públicos tratassem ricos e pobres igualmente. A percepção de tratamento injusto era particularmente acentuada entre grupos socialmente vulneráveis.
A relação também funciona no sentido inverso. Sociedades marcadas pela desconfiança encontram mais dificuldades para construir acordos distributivos, financiar bens públicos e promover políticas capazes de reduzir desigualdades.
Forma-se um círculo vicioso: a desigualdade alimenta a desconfiança, que enfraquece a cooperação necessária para enfrentar a própria desigualdade.
Essa condição não resulta de uma característica cultural imutável dos brasileiros. Quando fraudes são recorrentes, serviços falham e regras parecem variar conforme o poder dos envolvidos, desconfiar pode ser uma reação racional de autoproteção.
Confiança interpessoal e confiança nas instituições não são idênticas, mas se reforçam. Quando compromissos são cumpridos e direitos são respeitados, cooperar com desconhecidos torna-se menos arriscado.
Recuperar a confiança exige, portanto, reduzir desigualdades, combater privilégios e assegurar que todos sejam tratados com justiça. Esse desafio é aprofundado na súmula de confiança interpessoal da República em Jogo .
3. O Estado de Direito e os privilégios que corroem a confiança
A confiança republicana enfraquece quando a maioria precisa cumprir as regras, mas grupos poderosos conseguem moldá-las em benefício próprio.
No Índice de Estado de Direito de 2026 , o Brasil ocupa a 76ª posição entre 143 países. O Judiciário revela uma contradição especialmente grave.
Segundo o Conselho Nacional de Justiça , o país terminou 2025 com 75,5 milhões de processos em tramitação e gastou R$ 164,6 bilhões com o sistema judicial. Temos apenas 8,9 magistrados por 100 mil habitantes, contra 18 nos países europeus analisados pelo CNJ, apesar de uma demanda judicial por habitante 4,18 vezes maior.
A relação é direta: proporcionalmente, há poucos juízes para uma demanda gigantesca, o que agrava a sobrecarga e dificulta o julgamento dos processos. A elevada litigiosidade e os problemas de execução também precisam ser enfrentados.
O contraste com a remuneração é difícil de aceitar. Em 2025, o subsídio-base de magistrados estaduais girava em torno de R$ 37,9 mil mensais — mais de dez vezes o rendimento médio do trabalho no país, de R$ 3.560, segundo o IBGE . Um levantamento das folhas de pagamento do CNJ publicado pelo UOL encontrou média de R$ 83,7 mil líquidos mensais para magistrados estaduais em 2025, incluindo adicionais e pagamentos eventuais.
Em março de 2026, o Supremo Tribunal Federal restringiu penduricalhos e estabeleceu novas regras de transparência. Mas a regulamentação é insuficiente diante da realidade brasileira: em determinadas condições, ainda admite pagamentos mensais que podem chegar a aproximadamente R$ 78,8 mil, mais de 22 vezes o rendimento médio nacional do trabalho em 2025. O STF esclareceu a aplicação das regras em julho .
Não faz sentido naturalizar remunerações tão distantes da renda da população enquanto faltam magistrados e milhões de processos aguardam solução. A prioridade deve ser conter privilégios, preencher vagas necessárias, modernizar procedimentos e assegurar Justiça acessível e rápida, preservando a independência judicial.
O problema não se limita ao Judiciário. Isenções tributárias particularistas e vantagens corporativas também enfraquecem a ideia de que a lei vale igualmente para todos. A reforma tributária do consumo, em transição desde 2026, pode simplificar obrigações, mas não resolve sozinha os privilégios fiscais nem as desigualdades na tributação da renda e do patrimônio.
Max Weber estudou como instituições burocráticas podem desenvolver interesses próprios. Émile Durkheim chamou de *anomia* a situação em que as normas perdem força para orientar a vida coletiva.
O caso do Banco Master tornou esse risco institucional especialmente concreto. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou sua liquidação, apontando graves problemas financeiros e violações das normas bancárias. Em outubro de 2026, a Polícia Federal indiciou o ex-controlador do banco e outros 14 investigados por suspeitas relacionadas a operações com carteiras de crédito envolvendo o Banco de Brasília (BRB), instituição pública. A investigação apontou prejuízos bilionários; as defesas contestam as acusações e as responsabilidades penais ainda dependem de apreciação judicial.
O episódio suscita questões fundamentais sobre a relação entre interesses privados e instituições públicas, a eficácia dos controles e o risco de captura das decisões por grupos influentes. A atuação dos órgãos de fiscalização e investigação demonstra, por sua vez, a importância de instituições capazes de reagir às irregularidades e apurar responsabilidades com independência.
Quando cidadãos percebem que o poder econômico pode abrir portas inacessíveis à maioria, a confiança nas regras comuns se deteriora. A reconstrução institucional exige assegurar que influência, riqueza e posição social não determinem quem será fiscalizado, protegido ou responsabilizado.
4. Recuperar o debate público
O encontro entre Lara Resende e Orenstein mostrou que discordar não precisa significar desqualificar o outro. Eles apresentaram diagnósticos e preocupações diferentes, mas discutiram um problema comum: como tornar a política econômica compatível com estabilidade, desenvolvimento e legitimidade institucional.
É esse tipo de confronto de ideias que precisa voltar ao centro da vida pública. Redes sociais e disputas eleitorais frequentemente recompensam certezas fáceis e ataques pessoais; o país precisa valorizar também a capacidade de rever posições diante das evidências.
Valorizar a contribuição de Lara Resende não significa concordar com cada proposta sua. Significa reconhecer que nenhum modelo econômico e nenhuma instituição devem estar protegidos do escrutínio público.
A inteligência pública não é patrimônio de especialistas. Ela surge quando conhecimento técnico, experiência social e participação democrática se encontram. Uma sociedade amadurece quando aprende a discordar sem deixar de cooperar.
5. A energia dos jovens e a oportunidade de transformação
Em outubro, a União Nacional dos Estudantes promoveu mobilizações pela reeleição de Lula. Sua presidente, Bianca Borges, declarou: “Não sairemos das ruas!” O movimento expressou o desejo de manter a juventude presente nas decisões sobre seu próprio futuro.
Em 25 de outubro, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, em uma eleição disputada, segundo o Tribunal Superior Eleitoral . O novo mandato abre uma oportunidade para enfrentar entraves históricos ao desenvolvimento e renovar compromissos com educação, ciência, trabalho digno e direitos.
Mas eleição e mobilização não bastam. A participação precisa continuar depois das urnas, com espaço para propostas, acompanhamento de resultados e fiscalização das decisões públicas. E a disposição de participar, qualquer que seja a orientação política, deve conviver com o respeito ao pluralismo democrático.
O desafio é reunir a experiência de quem conhece o Estado com a urgência de uma geração que cobra perspectivas reais. A energia das ruas pode abrir caminhos; instituições abertas e responsáveis precisam transformá-la em conquistas.
Conclusão — Fazer da esperança um método
O artigo 3º da Constituição, que sintetiza o pacto constitucional, estabelece quatro objetivos fundamentais para o país: “construir uma sociedade livre, justa e solidária”; “garantir o desenvolvimento nacional”; “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”; e “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
Esses compromissos, muito mais do que citações pomposas, exigem ações verificáveis e centralidade no planejamento público.
Exigem também um debate econômico que permita à sociedade compreender as escolhas que condicionam seu futuro.
O encontro do CEBRI e a mobilização estudantil mostram que o Brasil ainda possui inteligência crítica e disposição coletiva para mudar. A reeleição de Lula oferece uma oportunidade política para aproximá-las de uma agenda de desenvolvimento.
A confiança não nasce de discursos sobre união. Ela se constrói quando as regras valem para todos, as desigualdades diminuem, as instituições entregam resultados e os cidadãos percebem que cooperar produz um futuro melhor.
É assim que a esperança pode deixar de ser um sentimento e se tornar um método de reconstrução nacional.
Para participar: o que precisa mudar primeiro para que os brasileiros voltem a confiar mais nas instituições e uns nos outros?
Quer aprofundar? Fontes e indicadores relacionados
- VídeoVídeo indicado no artigo — YouTube ↗
- Fonte do debateCEBRI — Debate de 23 de outubro de 2026 ↗
- Pesquisa comparativaWorld Values Survey — Confiança interpessoal ↗