Quando o Estado brasileiro sai, o Estado estrangeiro entra
Quando ativos brasileiros passam para grupos controlados por governos estrangeiros, o debate deixa de ser apenas sobre privatização: envolve estratégia de desenvolvimento, capital nacional e soberania econômica.
Principais pontos do artigo
Um mapa do argumento antes da leitura integral.
O caso TIM ilustra a mudança de controle indireto de uma operadora brasileira para um grupo sob controle público italiano.
Ativos de energia, aeroportos e refino mostram situações distintas de controle ou participação relevante de Estados estrangeiros.
O custo do financiamento brasileiro pode criar condições competitivas desiguais na disputa por ativos estratégicos.
A resposta proposta não é estatizar tudo, mas combinar capital nacional, investimento estrangeiro e governança pública de longo prazo.
O Brasil passou décadas ouvindo que o Estado precisava sair da economia. Privatizou empresas, vendeu ativos, concedeu infraestrutura e reduziu sua presença em setores estratégicos.
Em muitos casos, porém, o Estado não saiu. Saiu o Estado brasileiro e, algum tempo depois, entrou o Estado estrangeiro.
O caso mais recente é também o mais explícito. Desde setembro de 2026, uma das três grandes operadoras móveis do país tem como controladora indireta uma empresa sob controle do governo italiano.
O caso TIM
Em 18 de setembro de 2026, a TIM Brasil informou ao mercado, por fato relevante, que a Poste Italiane passou a deter cerca de 66,6% da Telecom Italia. Com isso, tornou-se controladora da empresa italiana e, por consequência, controladora indireta da TIM Brasil.
A Poste Italiane não é uma empresa privada qualquer. Antes da oferta, o Ministério da Economia e Finanças da Itália detinha 29,26% do capital diretamente e outros 35% por meio da Cassa Depositi e Prestiti, também controlada pelo ministério. Como a oferta foi paga em parte com novas ações da Poste, essas fatias devem ter sido diluídas, mas o controle público do grupo permanece.
Há uma ironia que merece destaque. A Telecom Italia foi privatizada em 1997, no auge da mesma onda de reformas que inspirou o Brasil. Quase três décadas depois, a Itália a trouxe de volta para a órbita do Estado. E, junto com ela, uma operadora brasileira com dezenas de milhões de linhas.
Telecomunicações, redes digitais e dados estão entre as infraestruturas mais estratégicas deste século. Por isso o caso é simbólico.
O padrão não é novo
A TIM é só o exemplo mais recente. Em energia, aeroportos e refino, ativos que já foram do Estado brasileiro estão hoje sob grupos em que um Estado estrangeiro controla ou tem peso decisivo.
| Ativo | Como saiu do Estado brasileiro | Dono atual | Peso do Estado estrangeiro |
|---|---|---|---|
| CPFL | Privatizada por São Paulo em 1997; comprada em 2017 de grupos privados e fundos de pensão | State Grid | Controle total do Estado chinês |
| Usinas de Jupiá e Ilha Solteira | Concessões da Cesp relicitadas em 2015 | CTG (China Three Gorges) | Controle total do Estado chinês |
| Eletropaulo (hoje Enel SP) | Privatizada em 1998; comprada em 2018 de acionistas privados | Enel | Estado italiano é o maior acionista, com cerca de 23% |
| Ex-Gerasul, cisão da Eletrosul (hoje Engie Brasil) | Privatizada em 1998 | Engie | Estado francês tem 22,6% do capital e cerca de 34% dos votos |
| Aeroporto de Congonhas | Concedido em 2022, saiu da Infraero | Aena | Estado espanhol controla 51% |
| Refinaria de Mataripe (ex-RLAM) | Vendida pela Petrobras em 2021 | Acelen (Mubadala Capital) | Ligada ao fundo soberano de Abu Dhabi |
A tabela mostra uma nuance importante. Nem sempre o Estado brasileiro vendeu diretamente a um Estado estrangeiro. No caso da CPFL e da Eletropaulo, houve uma etapa intermediária: o capital privado nacional comprou e, anos depois, revendeu.
Isso não enfraquece o argumento. Ao contrário, revela um problema adicional: o capital privado brasileiro não conseguiu, ou não quis, manter esses ativos.
Também é preciso diferenciar os casos. Na State Grid, na CTG, na Aena e agora na TIM, há controle estatal estrangeiro. Na Enel e na Engie, o Estado é acionista de referência, com influência relevante, mas sem maioria do capital.
O caso de Mataripe tem um desdobramento. Em agosto de 2026, a presidente da Petrobras confirmou que a estatal segue negociando a recompra da refinaria. Se a operação se concretizar, o Brasil pagará para reaver um ativo que vendeu há apenas cinco anos.
Uma disputa que começa desigual
O problema não é a entrada de capital estrangeiro. O Brasil precisa de investimento e deve recebê-lo. O problema é que a disputa por esses ativos raramente acontece em condições iguais.
O Brasil mantém há décadas um dos maiores juros reais do mundo. Para uma empresa brasileira, construir uma fábrica, desenvolver tecnologia ou comprar um ativo de longo prazo exige competir com aplicações financeiras que pagam muito, com pouco risco. O resultado é previsível: o dinheiro fica caro para quem quer produzir e bem remunerado para quem já tem capital.
Quando um grande ativo é colocado à venda, de um lado pode estar um grupo nacional financiando-se às taxas brasileiras. Do outro, uma estatal chinesa, uma empresa europeia com acesso a crédito barato ou um fundo soberano com centenas de bilhões de dólares.
Por isso, juros, privatizações e desnacionalização não deveriam ser discutidos separadamente. Um país com capital caro por décadas enfraquece suas próprias empresas e, ao vender ativos, os oferece a competidores que chegam com financiamento mais barato e estratégias nacionais de longo prazo.
Uma ressalva honesta: o comprador estrangeiro também corre riscos no Brasil, como a variação cambial e o custo de qualquer dívida em reais. A vantagem existe, mas não é absoluta.
O Brasil não tem instrumentos?
Seria injusto dizer que o Brasil abandonou todos os seus instrumentos. O país ainda tem o BNDES e a BNDESPar, a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa. São ferramentas que muitos países invejariam.
Também é verdade que o uso desses instrumentos nem sempre deu certo. A política de "campeões nacionais" dos anos 2000 produziu resultados mistos. Nas telecomunicações, o exemplo é doloroso: a Oi, montada com apoio do BNDES para ser a grande operadora nacional, terminou em recuperação judicial.
As privatizações, por sua vez, não nasceram apenas de dogma. Responderam a crises fiscais reais, a dívidas elevadas e a empresas que muitas vezes eram mal geridas ou usadas politicamente.
Nada disso invalida o argumento central. Mostra apenas que a resposta não é simplesmente "mais Estado". O que os outros países têm, e o Brasil perdeu, é uma estratégia: instituições públicas com governança, metas claras e horizonte longo.
A pergunta certa
A China não desmontou suas estatais; internacionalizou-as. França e Itália abriram o capital de grandes empresas, mas mantiveram participação pública e influência. A Espanha manteve uma operadora aeroportuária estatal. Emirados Árabes e Singapura criaram fundos soberanos que compram ativos no mundo inteiro.
Do ponto de vista desses países, isso é estratégia. O problema não é eles terem uma. É o Brasil não ter uma equivalente.
O debate, portanto, não deveria ser "privatizar ou estatizar". Deveria ser outro:
- Quem vai acumular o capital produzido pelo desenvolvimento brasileiro?
- Quem será dono das redes de telecomunicações, das redes elétricas e dos data centers?
- Quem financiará projetos de vinte ou trinta anos, inclusive em inteligência artificial?
- Quem terá empresas capazes de comprar ativos estratégicos no exterior?
Um país pode e deve receber investimento estrangeiro. Mas também precisa construir capital nacional, empresas nacionais e capacidade pública de investimento, com governança que evite os erros do passado.
Caso contrário, o padrão tende a se repetir: o Brasil vende ativos para resolver problemas de curto prazo, enquanto outros países usam instituições públicas para acumular patrimônio de longo prazo. Muitas vezes, o capital público não desaparece. Só troca de bandeira.
Fontes
Quer aprofundar? Fontes e indicadores relacionados
- Fonte externaSenado italiano: estrutura acionária da Poste ↗