O Brasil precisa de um plano de reconstrução fiscal, financeira e produtiva. E precisa dele agora.
Um plano construído em diálogo com especialistas e instituições brasileiras: onze frentes para reduzir juros, rever privilégios, preservar proteção social e ampliar investimento e P&D.
O mundo está reorganizando suas cadeias produtivas, disputando tecnologias estratégicas e redefinindo as relações de poder. O Brasil enfrenta essa transformação com os juros reais mais altos do G20, baixo investimento e graves fragilidades produtivas e institucionais. A turbulência financeira após as eleições reforçou a urgência de construir convergências em torno de uma agenda de futuro. Este artigo apresenta uma proposta de plano de reconstrução fiscal, financeira e produtiva para discussão pública. Em onze frentes, o República em Jogo articula contribuições de especialistas, economistas e instituições brasileiras, incluindo os Cadernos do Futuro do Brasil, entidades científicas e empresariais e diferentes correntes do debate econômico. A proposta sugere quatro decisões iniciais ainda em 2026 e está aberta a críticas, novas contribuições e aperfeiçoamentos.
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O futuro não vai esperar pelo Brasil
O mundo entrou em uma nova etapa de competição econômica, tecnológica e geopolítica. Estados Unidos, China, Europa e outras potências disputam o domínio da inteligência artificial, dos semicondutores, da computação avançada, da energia, dos minerais críticos e das tecnologias que definirão a próxima geração de indústrias e serviços.
Não se trata apenas de uma corrida entre empresas. Governos estão mobilizando investimentos, crédito, compras públicas, pesquisa, infraestrutura e instrumentos de política industrial para disputar posições na economia mundial.
Ao mesmo tempo, guerras, tensões comerciais, disputas por cadeias de suprimentos e mudanças climáticas elevam a incerteza internacional. A capacidade de produzir tecnologia, financiar investimentos e responder rapidamente a crises tornou-se parte central da soberania de cada país.
O Brasil não pode atravessar essa transformação preso a um modelo econômico que remunera excepcionalmente bem a aplicação financeira, mas oferece condições insuficientes para investir, inovar e aumentar a produtividade.
Tampouco pode desperdiçar os próximos anos prolongando indefinidamente os conflitos políticos e econômicos que o dividem.
A eleição presidencial de outubro definiu quem governará o país, mas não resolveu seus desafios estruturais. O novo mandato precisa começar com uma agenda capaz de produzir resultados concretos para trabalhadores, empresários, investidores, pesquisadores e cidadãos de diferentes posições políticas.
Pacificar o país não significa eliminar divergências ou exigir adesão a um pensamento único. Significa construir compromissos nacionais sobre questões que não podem continuar submetidas à paralisia: estabilidade econômica, responsabilidade com as contas públicas, geração de empregos de qualidade, desenvolvimento tecnológico, fortalecimento das instituições e ampliação das oportunidades.
O tempo disponível para essa construção é curto.
A reação do mercado financeiro à reeleição do presidente Lula tornou a urgência ainda mais evidente. Nos dias 26 e 27 de outubro, em meio à disparada dos juros futuros e à perda de liquidez no mercado de títulos públicos, o Tesouro Nacional precisou recomprar R$ 31,6 bilhões em papéis. Também cancelou leilões para evitar operações em condições desfavoráveis.
A intervenção buscou preservar o funcionamento do mercado, mas o episódio revelou uma vulnerabilidade mais profunda: o custo do financiamento brasileiro permanece excessivamente sensível às expectativas fiscais, à instabilidade política e às mudanças de percepção de risco.
A resposta do governo foi rápida. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou a intenção de apresentar mudanças legislativas para reforçar o compromisso com o centro da meta fiscal, ampliando, quando necessário, a capacidade de contingenciar despesas. Também sinalizou discussões sobre emendas parlamentares, supersalários e aposentadorias especiais.
É um começo importante. Mas a dimensão dos desafios brasileiros exige mais do que medidas fiscais isoladas.
O país precisa de uma estratégia integrada, capaz de oferecer confiança a quem financia a economia, segurança a quem trabalha e condições concretas a quem pretende investir no futuro.
O preço de continuar como estamos
Os números ajudam a compreender o tamanho do problema.
Em setembro de 2026, o Brasil registrava juro real esperado de 8,45% ao ano, segundo levantamento da MoneYou e da Lev Intelligence. Era a maior taxa entre os países do G20 com dados disponíveis e equivalia a 5,2 vezes a média das 40 economias analisadas.
Enquanto isso, o crédito livre às famílias brasileiras alcançava uma taxa média de 62,4% ao ano. O problema não está apenas na Selic: os elevados spreads bancários, o risco de inadimplência, a concentração de determinados mercados e as dificuldades de acesso a financiamento ampliam o custo do dinheiro para quem mais precisa dele.
A conta também aparece nas finanças públicas. Segundo o Banco Central, os juros nominais do setor público consolidado somaram R$ 1,205 trilhão nos doze meses encerrados em setembro de 2026, equivalentes a 8,99% do PIB.
Essa conta pressiona a dívida pública, compromete a sustentabilidade das finanças do Estado e reduz sua capacidade de financiar investimentos e políticas essenciais. O Brasil precisa romper esse círculo: juros elevados aumentam o endividamento, e uma dívida mais cara e difícil de administrar contribui para manter os juros altos.
A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em setembro. Sua trajetória depende não apenas de gastos e arrecadação, mas também dos próprios juros, do crescimento econômico e das condições de refinanciamento.
Crescimento econômico e responsabilidade fiscal fazem parte da mesma estratégia. Como tem defendido o presidente Lula , ampliar a produção e a renda contribui para melhorar a relação dívida/PIB e fortalecer as contas públicas. A sustentabilidade do endividamento depende da combinação entre crescimento do PIB, custo de carregamento da dívida, resultado primário e condições de financiamento. Por isso, o plano articula revisão de privilégios, proteção dos gastos sociais e investimentos que ampliam a capacidade produtiva e a arrecadação futura.
A súmula Dívida pública: quanto custa, como vence e por que cresce aprofunda essa dinâmica.
O mecanismo afeta toda a economia: juros elevados pressionam a dívida e desestimulam investimentos; o investimento insuficiente limita o crescimento e a arrecadação; e perspectivas mais fracas de expansão econômica dificultam o ajuste fiscal e mantêm elevados os prêmios de risco.
Esse círculo tem consequências que vão muito além dos mercados financeiros.
Investimos pouco para o tamanho de nossas ambições
No segundo trimestre de 2026, a taxa de investimento brasileira foi de apenas 16,1% do PIB.
Em uma comparação internacional com dados de 2024, o Brasil investia 17% do PIB, aproximadamente 6,5 pontos percentuais abaixo da mediana dos países do G20 analisados.
A distância em relação aos líderes era ainda maior. A China investia aproximadamente 40% do PIB, mais que o dobro da proporção brasileira. A Índia alcançava cerca de 32%, enquanto Turquia e Arábia Saudita se aproximavam de 31% e a Coreia do Sul registrava aproximadamente 30%.
Isso significa que, proporcionalmente ao tamanho de suas economias, esses países destinavam uma parcela muito maior de sua produção à construção de infraestrutura, aquisição de máquinas, modernização de instalações e ampliação da capacidade produtiva. A qualidade e o retorno dos projetos também importam, mas a distância brasileira é grande demais para ser ignorada.
Estamos deixando de construir fábricas, modernizar equipamentos, ampliar infraestrutura e desenvolver novas capacidades produtivas na velocidade necessária.
O desafio é ainda maior quando se considera que parte dos investimentos apenas substitui máquinas, instalações e estruturas que se desgastaram. O que realmente interessa é ampliar o estoque de capital produtivo e a capacidade de gerar riqueza.
Veja a súmula Investimento e formação bruta de capital fixo .
Perdemos espaço na economia de maior complexidade
A desindustrialização brasileira não pode ser medida apenas pelo número de fábricas. O problema central é a perda relativa de capacidades produtivas, tecnológicas e de engenharia que permitem ao país produzir bens e serviços cada vez mais sofisticados.
Em 2025, enquanto a economia brasileira cresceu, a indústria de transformação registrou retração de 0,2%.
No arquivo de rankings do Atlas de Complexidade Econômica, classificação HS92 e edição v12.0, com dados comerciais de 2024, o Brasil ocupava a 59ª posição entre 145 países. Essa referência permite comparação homogênea com os demais países da mesma edição.
O indicador não descreve toda a capacidade industrial do país, mas expõe nossa dificuldade de diversificar e sofisticar a produção exportadora.
As súmulas Complexidade econômica e Exportações de alta tecnologia mostram o tamanho dessa distância em relação às economias líderes.
Criamos empregos, mas ainda oferecemos pouca proteção e produtividade
A queda do desemprego é uma conquista importante. No trimestre encerrado em setembro de 2026, a desocupação atingiu 5,2%, uma das menores taxas da série histórica.
Entretanto, 38,8 milhões de brasileiros continuavam trabalhando na informalidade, o equivalente a 37,5% da população ocupada.
Milhões de pessoas enfrentam renda instável, baixa proteção previdenciária, dificuldades de qualificação e oportunidades insuficientes de progressão profissional.
Uma economia pode gerar muitos postos de trabalho e ainda assim produzir menos riqueza e segurança do que poderia.
A súmula Precariedade do trabalho detalha esse desafio.
Inovamos menos do que precisamos
A distância tecnológica é igualmente preocupante.
Segundo a Tabela 1.1.7 do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o P&D empresarial brasileiro representou 0,61% do PIB em 2024, ante 0,63% em 2023. Em valores corrigidos para preços de 2024, o dispêndio empresarial aumentou ligeiramente, de R$ 71,33 bilhões para R$ 71,67 bilhões. Assim, a intensidade em relação ao PIB caiu, mas o gasto empresarial real não diminuiu. (MCTI, Tabela 1.1.7 )
A distância para as economias líderes é expressiva. Em uma comparação internacional referente a 2023, o Brasil destinava aproximadamente 0,60% do PIB ao P&D empresarial, enquanto a Coreia do Sul alcançava cerca de 3,9%, o Japão 2,7% e os Estados Unidos também 2,7%. Em proporção ao PIB, o esforço empresarial sul-coreano era aproximadamente 6,5 vezes o brasileiro, e o japonês e o norte-americano, cerca de 4,5 vezes.
Considerando o investimento nacional total em P&D, público e privado, o Brasil alcançou aproximadamente 1,2% do PIB em 2023, segundo os indicadores do MCTI. No mesmo período, a média dos países da OCDE estava próxima de 2,7%.
Enquanto essas economias ampliam suas capacidades em inteligência artificial, novos materiais, biotecnologia, semicondutores e manufatura avançada, grande parte das empresas brasileiras ainda investe pouco na geração de conhecimento e tecnologia próprios.
Sem capital paciente, pessoal qualificado, infraestrutura tecnológica e mercados capazes de absorver inovação, o país corre o risco de se tornar um grande consumidor de soluções desenvolvidas no exterior.
Veja a súmula Pesquisa e desenvolvimento empresarial .
Nossas instituições também encarecem o desenvolvimento
Os problemas não se restringem à economia.
No Índice de Estado de Direito do World Justice Project de 2026, o Brasil ocupava a 76ª posição entre 143 países.
O Judiciário encerrou 2025 com 75,5 milhões de processos pendentes, apesar da redução do estoque em relação ao ano anterior. No mesmo ano, recebeu 40,9 milhões de casos novos.
A excessiva judicialização, a morosidade em determinados tipos de processo, a imprevisibilidade de decisões e as dificuldades de execução de contratos impõem custos a cidadãos, empresas e ao próprio Estado.
Reformar o Judiciário, ampliar sua capacidade de atendimento, melhorar a gestão processual, controlar pagamentos extrateto e aperfeiçoar o funcionamento do STF são partes de uma agenda de modernização institucional que deve preservar a independência judicial.
A súmula Estado de Direito aprofunda essas reformas.
Esses problemas estão conectados. Não haverá desenvolvimento produtivo robusto sem financiamento adequado, instituições eficientes, conhecimento tecnológico e uma economia capaz de transformar investimentos em produtividade.
Um plano de reconstrução em três dimensões
Apresentamos um Plano de Reconstrução Fiscal, Financeira e Produtiva, organizado em onze frentes complementares. Sua formulação sistematiza e desenvolve propostas já debatidas por diferentes especialistas e instituições nacionais. Entre os exemplos está o Fundo de Estabilização, inspirado no Fundo Estabiliza Brasil proposto nos Cadernos do Futuro do Brasil .
A lógica do plano é combinar contas públicas sustentáveis, estabilidade monetária, crédito competitivo e aumento da capacidade produtiva.
Ajustar as contas públicas sem enfrentar os mecanismos que mantêm os juros elevados pode produzir sacrifícios sem resultados suficientes. Reduzir os juros sem uma estratégia fiscal confiável pode alimentar novas pressões inflacionárias. E combinar estabilidade fiscal com crédito mais barato, mas sem transformar a estrutura produtiva, limita os ganhos de longo prazo.
A reconstrução exige que essas dimensões avancem juntas.
Quadro-resumo — as onze frentes do plano
As propostas abaixo sintetizam as onze frentes articuladas neste plano, detalhadas na súmula de juros . Reúnem contribuições de diferentes especialistas e instituições nacionais, além de escolhas e desdobramentos formulados pelo República em Jogo. São propostas de política pública, não medidas já aprovadas ou resultados alcançados.
| Frente | Medidas propostas | Horizonte ou resultado buscado |
|---|---|---|
| 1. Confiança fiscal e justiça tributária | Reforçar o arcabouço e buscar o centro da meta fiscal; combater sonegação, revisar privilégios e despesas pouco efetivas; reduzir emendas à metade; proteger políticas sociais e investimento; examinar a contabilização dos pisos com salvaguardas para o Fundeb. | Pacote anunciado em dezembro de 2026; trajetória sustentável da dívida. |
| 2. Desindexação e revisão de regras | Reduzir reajustes automáticos que reproduzem a inflação, revisar regras de indexação e remuneração da poupança e preservar mecanismos essenciais de proteção da renda. | Transição em 2027–2029. |
| 3. Fundo de Estabilização | Instituir fundo inspirado no Fundo Estabiliza Brasil, dos Cadernos do Futuro, para poupar receitas extraordinárias, amortecer choques e adquirir e investir em ativos estratégicos para o país — participações empresariais, infraestrutura e capacidades tecnológicas — com regras de liquidez, seleção e governança. | Apresentar proposta legislativa em dezembro de 2026. |
| 4. Mandato do Banco Central | Acrescentar expressamente estabilidade de preços, máximo emprego e juros de longo prazo moderados ao mandato legal, preservando a autonomia operacional. | Encaminhar reforma legislativa em dezembro de 2026. |
| 5. Trajetória da meta de inflação | Propor centro de 4% até 2029, 3,75% em 2030–2031, 3,5% em 2032, 3,25% em 2033 e 3% a partir de 2034, com banda de ±0,75 p.p. desde 2027, mediante mudanças legais e deliberação do CMN. | Anunciar trajetória completa em dezembro de 2026. |
| 6. Proteção contra volatilidades | Aperfeiçoar instrumentos transparentes de proteção cambial e de resposta a choques de commodities, alimentos e energia. | Amortecer riscos em 2027–2031. |
| 7. Gestão da dívida pública | Alongar prazos, reduzir a dependência de títulos ligados à Selic e melhorar a previsibilidade do refinanciamento. | Participação de títulos indexados à Selic inferior a 40% até 2029, como meta proposta. |
| 8. Produtividade e transformação produtiva | Fortalecer indústria, infraestrutura, pesquisa básica, compras públicas inovadoras, formação profissional e capacidade tecnológica; ampliar o P&D público e privado. | Investimento superior a 20% do PIB e P&D nacional de 2% do PIB até 2030. |
| 9. Crédito mais competitivo | Reduzir spreads, melhorar garantias e recuperação de crédito, ampliar concorrência e combater o superendividamento das famílias. | Crédito mais acessível e sustentável. |
| 10. Poupança longa e capital paciente | Desenvolver financiamento de longo prazo, mercados de capitais e compartilhamento de riscos para projetos produtivos e tecnológicos. | Mais projetos viáveis e maior investimento de longo prazo. |
| 11. Transparência e avaliação | Instituir avaliação periódica de grandes gastos e do conjunto de políticas fiscal, monetária e produtiva, com metas, responsáveis, indicadores e mecanismos de correção. | Acompanhamento público contínuo e revisões completas a cada dois anos. |
Quatro decisões para dezembro de 2026: anúncio do pacote fiscal, apresentação do Fundo de Estabilização, encaminhamento do novo mandato do Banco Central e divulgação da trajetória plurianual das metas de inflação. Sua implementação depende das medidas legais, administrativas e institucionais correspondentes.
1. Reconstrução fiscal: responsabilidade, justiça e capacidade de investir
A primeira dimensão é construir uma trajetória sustentável para as contas públicas, capaz de reduzir os prêmios de risco e liberar recursos para o desenvolvimento.
O Brasil deve manter e reforçar o arcabouço fiscal, com compromisso efetivo de buscar o centro da meta de resultado primário e uma âncora transparente para a trajetória da dívida.
Isso exige ampliar a capacidade de contingenciamento quando necessário, revisar prioridades e enfrentar gastos de baixa eficiência.
Mas o ajuste precisa ser seletivo.
Um norte do plano é a preocupação expressa pelo presidente Lula : fazer o PIB crescer e o dinheiro circular nas mãos da população de menor renda. A renda dessas famílias tende a se transformar rapidamente em consumo, movimentando comércio, serviços e produção. Por isso, o ajuste proposto concentra esforços na revisão de privilégios e despesas de baixa efetividade, preservando a proteção social e os investimentos que ampliam a capacidade produtiva. Cortar indiscriminadamente pode enfraquecer o crescimento, a arrecadação e a própria sustentabilidade fiscal.
Não faz sentido exigir sacrifícios dos investimentos produtivos e dos serviços essenciais enquanto privilégios tributários, remunerações extrateto e despesas de baixa efetividade permanecem protegidos.
O plano propõe enfrentar simultaneamente essas distorções.
Na tributação, é necessário consolidar a tributação mínima das altas rendas e de dividendos, avançar na revisão dos juros sobre capital próprio, reavaliar isenções de títulos financeiros para novas emissões, combater o uso indevido de regimes favorecidos e fortalecer a tributação progressiva das heranças, respeitadas as competências federativas.
O objetivo é ampliar a justiça tributária e reduzir privilégios, preservando instrumentos de financiamento que comprovadamente produzam benefícios econômicos e sociais superiores aos seus custos.
No combate à sonegação, a implementação do pagamento dividido na reforma tributária do consumo, o enfrentamento dos devedores contumazes e o uso de inteligência fiscal devem reduzir fraudes, concorrência desleal e perdas de arrecadação.
Do lado das despesas, propomos um programa consistente de revisão de privilégios e prioridades, incluindo a aplicação efetiva do teto remuneratório nos três Poderes; a eliminação progressiva do abono salarial, acompanhada de transição e proteção aos trabalhadores de menor renda; e a reforma da previdência militar, com contrapartida de ampliação dos investimentos estratégicos em defesa.
As emendas parlamentares devem ser reduzidas à metade de seu volume atual, com a parcela remanescente vinculada a metas verificáveis, especialmente nas áreas de saúde, educação e desenvolvimento urbano e regional.
Também propomos revisar os critérios de contabilização dos pisos de saúde e educação, mantendo seus percentuais constitucionais. Na educação, a revisão deve avaliar a inclusão da alimentação escolar e de outras despesas diretamente relacionadas ao acesso, à permanência e à aprendizagem dos estudantes, desde que sua finalidade educacional seja comprovada.
A mudança exigirá revisão da legislação aplicável, avaliação de seus impactos fiscais e educacionais, transparência e prevenção de dupla contagem. Será necessário examinar separadamente as consequências para o Fundeb, inclusive seus critérios de financiamento, distribuição e utilização, respeitando as exigências constitucionais e as competências dos entes federativos.
O objetivo é reconhecer de forma mais abrangente os custos efetivos da educação, melhorar a alocação dos recursos públicos e abrir espaço para uma gestão fiscal mais eficiente, sem comprometer a qualidade dos serviços prestados à população.
O salário mínimo permanece protegido no desenho do plano.
O resultado precisa ser demonstrado em números: economia permanente, ganho de arrecadação, espaço fiscal criado, efeito sobre os serviços públicos e trajetória esperada da dívida.
Por fim, incorporamos à agenda a proposta de criar um Fundo de Estabilização, inspirado no Fundo Estabiliza Brasil apresentado nos Cadernos do Futuro do Brasil . Em nosso desenho, ele seria alimentado, segundo regras legais, por parcelas de receitas extraordinárias associadas a commodities, dividendos de estatais e outorgas.
O fundo permitiria poupar parte dos ganhos excepcionais nos períodos favoráveis, formar reservas para enfrentar crises, reduzir vulnerabilidades financeiras e adquirir participações e investir em ativos estratégicos para o país, incluindo empresas, infraestrutura e capacidades tecnológicas relevantes para o desenvolvimento nacional. A dimensão patrimonial deve apoiar a expansão de capacidades produtivas e a autonomia estratégica, e não apenas a compra de ativos já existentes.
Para compatibilizar estabilidade e desenvolvimento, o desenho institucional deverá separar uma carteira líquida de estabilização, utilizável diante de choques, de uma carteira de investimentos estratégicos de longo prazo, sujeita a critérios públicos de seleção, avaliação patrimonial, risco, retorno, impacto tecnológico e governança. As aquisições deverão ser conciliadas com a gestão da dívida e com as regras fiscais; não representam, por si sós, formação adicional de capital fixo.
Responsabilidade fiscal deve significar preparar o Estado para o futuro, e não simplesmente reduzir sua capacidade de atuação.
2. Reconstrução financeira: um novo regime para juros, inflação e crédito
A segunda dimensão do plano é reformar a arquitetura monetária e financeira brasileira.
O país precisa de um Banco Central autônomo, tecnicamente competente e comprometido simultaneamente com a estabilidade dos preços, o funcionamento eficiente do sistema financeiro e condições sustentáveis para emprego e investimento.
Propomos aproximar seu mandato do modelo do Federal Reserve norte-americano, incorporando expressamente os objetivos de estabilidade de preços, máximo emprego e juros de longo prazo moderados.
A autonomia operacional seria preservada. O Banco Central continuaria responsável por decidir os instrumentos necessários ao cumprimento de seus objetivos, com transparência e prestação de contas.
Ao mesmo tempo, a política monetária precisa considerar melhor a origem das pressões inflacionárias.
Choques de energia, alimentos, câmbio e cadeias produtivas não são idênticos a excessos persistentes de demanda. Exigem diagnósticos e combinações de instrumentos diferentes.
Uma nova trajetória para a meta de inflação, com regras mais claras
Propomos estabelecer ainda em dezembro de 2026 uma nova trajetória para a meta contínua de inflação brasileira, combinando uma mudança imediata do centro com sua redução gradual ao longo dos anos seguintes.
O centro da meta passaria dos atuais 3% para 4% assim que a mudança normativa fosse aprovada, ainda em 2026. Permaneceria em 4% até 2029, seria reduzido para 3,75% em 2030 e 2031, para 3,5% em 2032 e para 3,25% em 2033, chegando a 3% em 2034.
A banda de tolerância, atualmente de ±1,5 ponto percentual, seria reduzida para ±0,75 ponto percentual a partir de janeiro de 2027, permanecendo nesse patamar nos anos seguintes.
Com isso, o intervalo de tolerância seria de 3,25% a 4,75% de 2027 a 2029; de 3% a 4,5% em 2030 e 2031; de 2,75% a 4,25% em 2032; de 2,5% a 4% em 2033; e de 2,25% a 3,75% a partir de 2034. Na transição inicial, em 2026, a banda atual de ±1,5 ponto percentual seria mantida até a entrada em vigor da faixa mais estreita.
O regime de metas de inflação nunca funcionou adequadamente no Brasil como parte de uma estratégia de desenvolvimento. Desde sua adoção, o país convive com juros reais elevados, investimento insuficiente e perda de capacidades industriais. O regime contribuiu para controlar a inflação em diferentes períodos, mas não foi acompanhado das condições fiscais, financeiras e produtivas necessárias para assegurar estabilidade com juros e custos de financiamento compatíveis com o desenvolvimento.
O custo de manutenção do sistema de metas, nas condições atuais, tornou-se inviável para o país. Os juros elevados pressionam a dívida pública e o orçamento das famílias, encarecem o crédito produtivo e dificultam os investimentos indispensáveis ao crescimento. Esses problemas não decorrem exclusivamente do regime de metas: resultam também da estrutura da dívida, da indexação, dos riscos fiscais, dos spreads bancários e dos limites da capacidade produtiva. É esse conjunto que precisa ser transformado.
A proposta é utilizar os próximos oito anos para reconstruir as condições de funcionamento do regime e convergir para 3% em 2034. A redução da indexação, o fortalecimento fiscal, a gestão da dívida, a concorrência financeira e o aumento do investimento e da produtividade devem diminuir o custo da desinflação. A trajetória será anunciada antecipadamente, com metas intermediárias, acompanhamento público e preservação da autonomia operacional do Banco Central.
A revisão considera também as mudanças no ambiente inflacionário internacional. Segundo os indicadores da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a inflação acumulada em doze meses no conjunto de seus países passou de aproximadamente 2,2% em dezembro de 2019 para 4,3% em agosto de 2026, após atingir níveis ainda mais elevados durante a crise inflacionária mundial de 2021 a 2023.
Embora a trajetória varie entre os países e parte da elevação reflita choques de energia, alimentos e outros fatores transitórios, os dados mostram que a economia mundial atravessa um período de maior instabilidade de preços. As transformações geopolíticas, a reorganização das cadeias produtivas, as mudanças climáticas e os custos da transição energética reforçam a importância de reexaminar os parâmetros monetários.
A estratégia combina flexibilidade no curto prazo e compromisso de convergência para 3% em 2034. A revisão inicial para 4% será acompanhada de reduções graduais e de uma banda de tolerância mais estreita a partir de 2027.
A nova trajetória, contudo, não equivale a aceitar qualquer inflação. O Banco Central continuaria obrigado a perseguir o centro estabelecido para cada período e a explicar publicamente os desvios, seus determinantes e as medidas necessárias para assegurar a convergência.
A decisão deve ser acompanhada de uma reforma legal que dê mais previsibilidade e legitimidade ao próprio processo de definição das metas.
Hoje, o Decreto nº 12.079/2024 exige antecedência mínima de 36 meses para alterações. Propomos substituir essa disciplina por uma lei que estabeleça antecedência ordinária mínima de 24 meses, admitindo alterações em prazo inferior somente diante de circunstâncias extraordinárias, expressamente justificadas.
A exceção seria aplicável quando acontecimentos excepcionais e persistentes — como transformações geopolíticas, rupturas prolongadas nas cadeias produtivas, alterações estruturais de custos ou outros choques de grande magnitude — produzissem evidências de mudança relevante nas condições estruturais da inflação, inclusive em sua taxa de equilíbrio de longo prazo.
Essa taxa não é diretamente observável. Por isso, qualquer alteração excepcional exigiria fundamentação técnica pública, com estimativas, cenários, avaliação dos riscos para as expectativas de inflação, manifestação do Banco Central e mecanismos de controle institucional.
Uma alta passageira do IPCA, por si só, não justificaria modificar a meta.
A mudança imediata para 4% em 2026 e o estreitamento da banda em 2027 dependeriam da aprovação prévia da nova disciplina legal, da adequação do decreto vigente e de deliberação do Conselho Monetário Nacional. A aplicação seria prospectiva, preservando a avaliação dos resultados anteriores conforme as regras então vigentes.
A trajetória de 3,75% em 2030, 3,5% em 2032, 3,25% em 2033 e 3% em 2034, por sua vez, seria definida antecipadamente, oferecendo aos agentes econômicos um horizonte de convergência superior ao prazo ordinário de 24 meses.
O objetivo é combinar capacidade de adaptação a mudanças excepcionais com previsibilidade institucional. A meta de inflação não deve ser tratada como um número imutável, mas também não pode ser alterada para acomodar conveniências políticas ou resultados econômicos desfavoráveis.
A redução gradual do centro da meta exige uma estratégia coerente de política econômica, capaz de diminuir os custos da desinflação por meio do fortalecimento fiscal, da redução da indexação, do aumento da produtividade e da melhoria das condições de oferta.
A mudança não produzirá automaticamente uma redução da Selic. Seu sucesso dependerá da credibilidade do pacote fiscal, da resposta das expectativas de inflação e da evolução dos juros de mercado.
Romper os mecanismos que reproduzem o dinheiro caro
O novo regime monetário precisa vir acompanhado de mudanças na estrutura financeira.
O plano propõe reduzir gradualmente a indexação automática de contratos, aluguéis e preços, reformar a regra de remuneração da poupança com proteção à transição e tornar a dívida pública mais longa e menos dependente da Selic.
Também é necessário enfrentar os elevados spreads bancários, ampliar a concorrência, melhorar os mecanismos de garantia, modernizar a recuperação de crédito, combater o superendividamento e fortalecer alternativas competitivas de financiamento.
O mesmo raciocínio vale para as dívidas das famílias: salários reais em crescimento, emprego mais estável e crédito de custo compatível aumentam a capacidade de pagamento. A sustentabilidade do endividamento das pessoas depende da relação entre renda, prestações e juros, não apenas da redução do consumo. Proteger a renda das famílias de menor poder aquisitivo ajuda a sustentar a atividade econômica, embora também exija atenção à inflação e à oferta de bens e serviços.
Para os investimentos produtivos, precisamos de mercados de capitais mais profundos, mecanismos de compartilhamento de riscos e instrumentos de financiamento de longo prazo.
A proteção diante da volatilidade cambial e de commodities também deve ser aperfeiçoada, com instrumentos transparentes e atuação coordenada das autoridades responsáveis.
A reconstrução financeira não consiste simplesmente em reduzir uma taxa administrativamente. Consiste em transformar as condições que fazem o dinheiro permanecer tão caro no Brasil.
3. Reconstrução produtiva, científica e tecnológica: usar a estabilidade para transformar o país
A terceira dimensão é garantir que a melhoria das condições financeiras se converta efetivamente em mais investimento, inovação, produtividade e empregos de qualidade.
O Brasil precisa voltar a pensar o desenvolvimento como uma construção de capacidades produtivas, científicas e tecnológicas.
Isso exige política industrial e política científica articuladas, com prioridades estratégicas, financiamento estável, metas verificáveis e avaliação permanente de resultados.
Compras públicas e encomendas tecnológicas devem impulsionar cadeias produtivas e inovação em setores como saúde, defesa, energia, infraestrutura, educação e tecnologias digitais.
A inteligência artificial, os semicondutores, a computação avançada, a bioeconomia e a transição energética precisam ocupar posição central na estratégia de desenvolvimento, articulando universidades, institutos de pesquisa, empresas, investidores e poder público.
A pesquisa básica, por sua vez, deve receber financiamento estável e de longo prazo. Nem toda descoberta científica produz aplicação comercial imediata, mas a construção de conhecimento, a formação de pesquisadores e a manutenção de instituições científicas são condições essenciais para a inovação futura.
Propomos elevar o investimento nacional total em pesquisa e desenvolvimento para 2% do PIB até 2030, somando os recursos públicos e privados e ampliando especialmente o esforço de P&D das empresas.
A meta representa um avanço importante em relação ao patamar de aproximadamente 1,2% do PIB registrado em 2023. Exige uma estratégia de expansão do financiamento, mobilização de recursos privados, fortalecimento do FNDCT, continuidade dos investimentos em universidades e institutos de pesquisa, incentivos à cooperação universidade-empresa e instrumentos de compartilhamento de riscos tecnológicos.
Não se trata simplesmente de aumentar gastos. O objetivo é ampliar a capacidade brasileira de produzir conhecimento original, desenvolver tecnologias próprias, formar profissionais altamente qualificados e transformar descobertas em soluções para a sociedade e em ganhos de produtividade.
Essa estratégia deve fortalecer tanto as áreas científicas de excelência já existentes quanto novas capacidades em regiões e setores ainda pouco atendidos pelo sistema nacional de inovação.
A formação profissional precisa acompanhar as transformações tecnológicas, preparando trabalhadores para ocupações de maior produtividade e garantindo oportunidades reais de atualização de competências.
Também precisamos ampliar a infraestrutura, fortalecer sistemas de inovação regionais, aprofundar o mercado de capitais e dar continuidade à implementação da reforma tributária do consumo, sem novos atrasos.
O financiamento de longo prazo precisa chegar aos projetos capazes de transformar a estrutura produtiva brasileira, com critérios de adicionalidade, desempenho e responsabilidade fiscal.
O plano estabelece, assim, duas metas complementares para 2030: elevar a taxa de investimento para mais de 20% do PIB e alcançar 2% do PIB em investimento nacional em P&D.
Esses resultados devem ser acompanhados de indicadores de produtividade, expansão do estoque de capital, sofisticação produtiva, formação de pesquisadores, inovação empresarial e capacidade tecnológica.
Investir mais é necessário. Investir melhor, produzir conhecimento e criar capacidades duradouras é decisivo.
As mudanças precisam começar juntas
A ordem das decisões importa.
Propomos que quatro compromissos sejam apresentados como um pacote integrado ainda em dezembro de 2026.
Primeiro: um choque de confiança fiscal. O governo apresentaria a estratégia de reforço do arcabouço, as medidas de revisão de gastos e privilégios, as iniciativas tributárias e uma trajetória verificável para o resultado primário e a dívida pública.
Segundo: o Fundo de Estabilização, inspirado no Fundo Estabiliza Brasil dos Cadernos do Futuro. Seria apresentada a proposta legislativa com fontes de recursos, regras de poupança, mandato para aquisição e investimento em ativos estratégicos, critérios de liquidez e utilização, governança transparente e avaliação do efeito sobre o patrimônio e a dívida pública.
Terceiro: o novo mandato do Banco Central. O governo encaminharia a reforma legislativa que incorporaria estabilidade de preços, máximo emprego e juros de longo prazo moderados, preservando a autonomia operacional.
Quarto: a nova trajetória para a meta de inflação. O governo apresentaria a mudança inicial do centro para 4%, sua redução para 3,75% em 2030, 3,5% em 2032, 3,25% em 2033 e 3% em 2034, com banda de ±0,75 ponto percentual a partir de 2027. O pacote incluiria a reforma da disciplina legal de definição das metas, com antecedência ordinária de 24 meses e exceções fundamentadas para circunstâncias extraordinárias.
Anunciadas separadamente, essas medidas podem parecer contraditórias ou incompletas.
Apresentadas conjuntamente, com estimativas, responsabilidades e mecanismos de acompanhamento, oferecem uma estratégia mais coerente: maior responsabilidade fiscal e uma arquitetura monetária reformada para viabilizar inflação controlada, juros sustentavelmente menores e investimentos mais elevados.
A trajetória monetária deve ser apresentada integralmente em dezembro, mesmo que sua implementação ocorra em etapas. Assim, a mudança inicial não seria uma medida isolada, mas parte de um compromisso plurianual de convergência, acompanhado por reformas fiscais, produtivas, científicas e tecnológicas.
O plano também precisa preservar a separação entre coordenação e subordinação institucional. Fazenda, Planejamento, Tesouro e Banco Central devem atuar de forma coordenada, respeitando as competências e a autonomia de cada instituição.
O debate já começou. É hora de construir convergências.
O Brasil não parte do zero.
Nos últimos meses, governo, instituições científicas, entidades empresariais, representantes do sistema financeiro e economistas de diferentes correntes apresentaram diagnósticos e propostas para enfrentar os desafios econômicos brasileiros.
As contribuições variam quanto às prioridades e aos instrumentos, mas oferecem pontos de aproximação que merecem ser examinados.
Durigan, Sergio Gabrielli e o programa do PT para eleição
Dario Durigan, ministro da Fazenda, anunciou em outubro de 2026 a intenção de fortalecer a regra fiscal brasileira, mediante alterações legislativas que assegurem maior capacidade de contingenciamento e um compromisso efetivo com o centro da meta de resultado primário.
O ministro também apontou a necessidade de rever emendas parlamentares, remunerações acima do teto constitucional e aposentadorias especiais, buscando conciliar responsabilidade fiscal com a preservação de recursos para investimentos e políticas sociais.
Essas iniciativas se aproximam da dimensão fiscal do plano aqui apresentado, especialmente na combinação entre cumprimento das metas, revisão de privilégios e reorientação das prioridades orçamentárias.
José Sérgio Gabrielli, economista e ex-presidente da Petrobras, coordenou a elaboração do programa de governo da campanha de reeleição do presidente Lula em 2026. Também esteve à frente do processo coletivo que deu origem aos Cadernos do Futuro do Brasil , produzidos pelas fundações partidárias da coalizão.
A elaboração do programa reuniu grupos temáticos, especialistas, integrantes do governo e contribuições da sociedade. Os Cadernos ampliaram esse trabalho, incluindo e refinando propostas debatidas ao longo do processo que não necessariamente integraram a versão final do programa eleitoral.
Sob a coordenação de Gabrielli, essa agenda colocou em discussão a articulação entre crescimento econômico, justiça social, soberania, transformação produtiva, inovação e fortalecimento das capacidades do Estado.
Na política econômica, os Cadernos defendem maior coordenação entre políticas fiscal, monetária, cambial e de crédito, redução sustentada dos juros, aperfeiçoamento do regime de metas de inflação e ampliação do investimento produtivo.
Também propõem enfrentar privilégios, melhorar a progressividade da tributação, ampliar a transparência das emendas parlamentares e mobilizar compras públicas e financiamento para estimular a inovação e a reindustrialização.
Gabrielli, em manifestações públicas durante a campanha, defendeu ainda a possibilidade de operações de recompra de títulos públicos pelo Tesouro para enfrentar pressões sobre os juros de longo prazo, além de uma tributação mais progressiva sobre as rendas elevadas.
As manifestações de Durigan e o trabalho programático coordenado por Gabrielli oferecem contribuições complementares ao debate: de um lado, o fortalecimento das condições fiscais e a revisão de despesas; de outro, uma agenda mais abrangente de responsabilidade fiscal, que também abrange crescimento, financiamento, inovação e desenvolvimento socioeconômico.
Essas contribuições podem ajudar a construir uma estratégia econômica integrada para o próximo mandato, respeitando a distinção entre propostas de campanha, documentos de discussão e decisões efetivamente adotadas pelo governo.
SBPC e ABC: ciência, educação e soberania como projeto de desenvolvimento
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) apresentaram em 2026 propostas que colocam ciência, educação e inovação no centro do desenvolvimento nacional.
A SBPC reuniu 117 propostas no documento *Vozes da Ciência — O Brasil que Queremos*. A ABC publicou *O futuro não pode esperar*, destacando financiamento científico, educação, soberania tecnológica e transformação produtiva.
As instituições defendem continuidade das políticas de ciência, fortalecimento de universidades e institutos de pesquisa, formação de pesquisadores e ampliação da capacidade nacional de produzir tecnologias.
Em uma nota técnica conjunta sobre o FNDCT , destacaram a importância de equilibrar crédito empresarial e financiamento não reembolsável à pesquisa, com maior transparência e atenção às desigualdades regionais.
A SBPC propõe atingir 2% do PIB em P&D até 2034, com meta intermediária de 1,58% em 2030. O República em Jogo propõe alcançar o mesmo patamar já em 2030, exigindo maior velocidade na expansão do financiamento público e privado.
A principal convergência é tratar a ciência como investimento estratégico de longo prazo, inclusive em pesquisas cujo retorno econômico não seja imediato.
CNI e Febraban: investimento, crédito e competitividade
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) contribuem para o debate a partir das condições de produção e financiamento da economia.
Em seu documento Construindo o Brasil 2050 , a CNI defende estabilidade macroeconômica, melhoria da infraestrutura, segurança jurídica, inovação, educação profissional e redução do Custo Brasil.
A entidade também propõe ampliar a concorrência no financiamento empresarial e melhorar o acesso aos fundos constitucionais, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
A Febraban divulgou em outubro pesquisa com 20 bancos que projetava crescimento de 8,9% da carteira total de crédito em 2026 e de 7,4% em 2027. O levantamento apontou preocupação com o aumento da inadimplência das famílias e a persistência de condições restritivas de financiamento.
Esses resultados não significam adesão da Febraban às reformas aqui propostas. Eles ajudam, porém, a dimensionar os desafios do crédito.
O conjunto das contribuições reforça a importância de combinar estabilidade, concorrência financeira, garantias eficientes, inovação e financiamento de longo prazo para elevar a produtividade.
Nelson Marconi, Manoel Pires e Felipe Salto: propostas para juros, dívida e ajuste fiscal
Diferentes economistas têm apresentado alternativas para combinar responsabilidade fiscal, redução dos juros e recuperação do crescimento.
Nelson Marconi, professor da FGV EAESP, defende uma estratégia que articule reorganização fiscal, redução da indexação, aumento da produtividade e investimento produtivo. Em artigos publicados na *Conjuntura Econômica*, sustentou a revisão da meta de inflação para 4%, argumentando que a convergência para 3% pode impor custos elevados diante das características estruturais da economia brasileira.
Manoel Pires, pesquisador do FGV IBRE, propõe um ajuste fiscal gradual e coordenado com a política monetária, evitando que a consolidação das contas públicas produza uma contração excessiva da atividade econômica. Em entrevista de outubro de 2026 , defendeu reduzir o ritmo de crescimento das despesas, rever subsídios, benefícios tributários e privilégios e ampliar a progressividade da tributação sobre a renda, preservando os programas sociais. Também considera legítimo discutir tecnicamente a meta de inflação, sem apresentar uma recomendação inequívoca de aumento imediato.
Felipe Salto, economista e ex-secretário da Fazenda de São Paulo, formulou a proposta “2+4” : buscar superávit primário estrutural de 2% do PIB e elevar o centro da meta de inflação para 4%. A estratégia envolve controle das despesas obrigatórias, revisão de benefícios fiscais e subsídios, redução de emendas parlamentares e um programa fiscal anunciado antecipadamente para melhorar as expectativas e diminuir os juros.
O ponto de aproximação entre essas propostas é a necessidade de enfrentar conjuntamente a dinâmica da dívida, o custo dos juros e as condições de crescimento.
O Plano de Reconstrução Fiscal, Financeira e Produtiva incorpora essas questões em uma estratégia que preserva o arcabouço fiscal, propõe revisão inicial do centro da meta para 4%, estabelece convergência para 3% em 2034 e define metas de investimento, ciência e tecnologia.
Armínio Fraga, Marcos Lisboa e André Lara Resende: instituições, reformas e política monetária
Outros economistas com participação relevante no debate nacional destacam diferentes mecanismos para melhorar o funcionamento da economia.
Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, enfatiza a sustentabilidade fiscal e a qualidade das instituições. Defende reformas na Previdência, na administração pública e nos benefícios tributários, com o objetivo de melhorar as expectativas e reduzir os riscos associados à dívida.
Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica, destaca segurança jurídica, concorrência, produtividade e avaliação de políticas públicas. Sua agenda atribui importância à redução de distorções regulatórias e subsídios pouco eficazes e ao fortalecimento das instituições.
André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, apresentou em setembro de 2026 o ensaio Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos . Nele, propõe maior coordenação entre políticas fiscal e monetária por meio de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional e uma trajetória de redução da Selic para aproximadamente 7,5% ao ano em doze meses, sob hipóteses específicas. Sua análise atribui papel central ao custo dos juros no crescimento da dívida pública.
As três perspectivas oferecem contribuições diferentes: Fraga destaca a reorganização fiscal; Lisboa, a produtividade e o funcionamento institucional; Lara Resende, a coordenação macroeconômica e a redução do custo financeiro da dívida.
Economistas defendem tributação dos ricos, proteção social e outra regra fiscal
Em 30 de outubro, um grupo de 50 economistas e outros especialistas divulgou o manifesto As urnas decidiram , noticiado pela Agência Brasil .
O documento defende maior tributação das altas rendas, revisão de isenções e privilégios, proteção das despesas sociais e redução dos juros.
Na política monetária, propõe elevar o centro da meta de inflação para 4,5% e ampliar a consideração do emprego nas decisões do Banco Central.
Na política fiscal, sugere substituir o arcabouço atual por um regime que conceda tratamento diferenciado a determinados investimentos e despesas sociais.
Há muitos pontos de aproximação com o Plano de Reconstrução, especialmente na progressividade tributária, na revisão de privilégios, na redução do custo da dívida e na importância do investimento público.
Essas alternativas contribuem para o debate sobre como combinar responsabilidade fiscal, estabilidade de preços, proteção social e desenvolvimento.
Uma agenda nacional construída a partir de contribuições diferentes
As propostas apresentadas não formam um programa único. Elas oferecem diferentes respostas para problemas relacionados: juros elevados, investimento insuficiente, baixa produtividade, limitações fiscais, dificuldades de financiamento e defasagem tecnológica.
A comunidade científica enfatiza o financiamento à pesquisa e a formação de capacidades. A indústria destaca competitividade, infraestrutura e inovação. O sistema financeiro apresenta diagnósticos sobre crédito e inadimplência.
Economistas de diferentes correntes apontam para a importância do custo da dívida, da qualidade do gasto, da justiça tributária, das instituições e da coordenação das políticas econômicas.
Pacificar o país em torno de uma agenda de futuro não exige eliminar divergências, mas construir compromissos verificáveis sobre resultados.
Empresários precisam de previsibilidade e financiamento competitivo. Trabalhadores precisam de oportunidades, renda e proteção. Governos precisam de sustentabilidade fiscal e capacidade de investimento. Pesquisadores e empreendedores precisam de condições para transformar conhecimento em desenvolvimento.
Esses objetivos podem integrar um mesmo projeto nacional.
Um plano com metas, responsáveis e mecanismos de correção
O Brasil já teve muitos programas econômicos anunciados com grandes expectativas e pouca capacidade de execução.
Por isso, a reconstrução proposta precisa ser acompanhada de governança institucional e avaliação pública.
Prevemos dois comitês complementares. O primeiro seria responsável por examinar grandes despesas públicas e benefícios tributários, identificando oportunidades de revisão, racionalização e melhoria da qualidade do gasto.
O segundo avaliaria o funcionamento integrado do regime fiscal, monetário e produtivo, verificando se suas metas estão sendo alcançadas e identificando os ajustes necessários.
As avaliações completas seriam realizadas a cada dois anos, com acompanhamento público mais frequente dos principais indicadores.
Entre os resultados a monitorar estão a trajetória da dívida, os juros reais, o custo do crédito às famílias e empresas, a evolução das expectativas de inflação, a participação dos títulos indexados à Selic na dívida, o investimento em relação ao PIB e a produtividade.
O acompanhamento monetário deverá considerar também os marcos sucessivos da nova meta: centro de 4% até 2029, 3,75% em 2030–2031, 3,5% em 2032, 3,25% em 2033 e 3% a partir de 2034, com a banda mais estreita de ±0,75 ponto percentual desde 2027.
O Plano de Jogo prevê, entre outros objetivos, reduzir o juro real esperado para aproximá-lo da taxa neutra até 2028, diminuir a parcela da dívida federal vinculada à Selic para menos de 40% até 2029 e elevar o investimento para mais de 20% do PIB até 2030.
A reconstrução científica e tecnológica acrescenta outra meta verificável: alcançar 2% do PIB em dispêndio nacional em P&D até 2030, com crescimento tanto do financiamento público quanto do investimento empresarial.
Essas são metas de política econômica, científica e tecnológica, não resultados garantidos. Sua viabilidade dependerá da evolução da inflação, das expectativas, dos riscos fiscais, das condições internacionais e da capacidade de executar reformas e mobilizar investimentos.
As regras estruturais devem ser preservadas entre as revisões programadas, ressalvados mecanismos excepcionais definidos previamente em lei. E o plano precisa ter alternativas explícitas para situações em que as receitas frustrem, o Congresso rejeite reformas ou novos choques cambiais e geopolíticos alterem o cenário.
A sociedade deve poder acompanhar não apenas as promessas, mas também os resultados, os custos e as correções de rota.
Dezembro precisa marcar uma nova etapa
O Brasil chega ao fim de 2026 diante de uma escolha histórica.
Podemos continuar discutindo medidas isoladas, reagindo a cada turbulência financeira, administrando conflitos e adiando reformas estruturais.
Ou podemos utilizar a transição para o novo mandato presidencial como oportunidade para construir uma agenda mais ambiciosa de desenvolvimento nacional.
O país dispõe de vantagens extraordinárias: um grande mercado interno, recursos energéticos e minerais, uma agropecuária competitiva, universidades e instituições científicas importantes, empresas com capacidades tecnológicas relevantes e uma sociedade que já demonstrou ser capaz de promover grandes transformações.
Mas vantagens não se convertem automaticamente em prosperidade.
É preciso financiamento, coordenação, estabilidade, instituições eficientes e decisões estratégicas.
O Brasil não pode disputar o futuro tecnológico e produtivo do mundo com as condições financeiras e institucionais que limitam seu desenvolvimento.
A reconstrução fiscal é necessária. A reconstrução financeira é indispensável. E nenhuma das duas fará sentido se não abrir caminho para uma profunda reconstrução produtiva, científica e tecnológica.
O país precisa reduzir os juros sem abandonar a estabilidade, ampliar investimentos sem perder o controle das contas públicas e fortalecer a proteção social sem renunciar ao crescimento da produtividade.
A nova trajetória da meta de inflação deve fazer parte desse compromisso: começar com 4% e convergir gradualmente para 3% em 2034, com uma banda mais exigente a partir de 2027. A estabilidade de preços continua sendo um objetivo permanente, integrado a uma estratégia plurianual de desenvolvimento e transformação econômica.
A sustentabilidade da dívida pública e das dívidas das famílias também depende de crescimento e renda. É preciso que o PIB se expanda e que salários e rendimentos acompanhem esse avanço, enquanto o Estado controla o custo do endividamento e preserva resultados fiscais compatíveis com sua trajetória. Ajustar privilégios e proteger gastos sociais e investimentos produtivos são escolhas que integram essa lógica: não basta cortar despesas se o corte elimina as condições de construir o futuro.
Ao mesmo tempo, elevar o investimento para mais de 20% do PIB e o esforço nacional em P&D para 2% do PIB até 2030 permitiria estabelecer objetivos concretos para a modernização da economia brasileira.
Mais do que uma agenda econômica, essa pode ser uma base para reduzir conflitos e construir compromissos nacionais em torno do futuro.
Dezembro de 2026 não precisa ser o mês em que todas as reformas estarão concluídas. Mas precisa ser o momento em que o Brasil decidirá, com clareza, quais transformações pretende realizar, quem será responsável por elas e como seus resultados serão cobrados.
O Brasil não pode pagar tão caro para continuar avançando tão devagar.
No República em Jogo , apresentamos o plano completo, com onze frentes, metas, prazos, responsáveis, riscos e alternativas de execução.
Conheça a súmula Juros: por que o dinheiro no Brasil custa tanto — e quem paga essa conta? .
A próxima partida do desenvolvimento brasileiro precisa começar agora.
Quer aprofundar? Fontes e indicadores relacionados
- Dado oficialBanco Central — Estatísticas monetárias e de crédito, setembro de 2026 ↗
- Norma vigenteDecreto nº 12.079/2024 — meta contínua e antecedência de 36 meses ↗
- Estatística oficialCNJ — Justiça em Números 2026 ↗